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segunda-feira, 13 junho 2005
António Sousa: «Estou preparado para chegar a um grande»
Categoria: Entrevistas
Entrevista ao novo técnico publicada no jornal 'O Jogo', conduzida por Melo Rosa.
O treinador, que está de regresso ao activo como sucessor de Carlos Brito, conta como foi estar parado um ano, fala do clube do seu coração, o Beira-Mar, revela ambições e, claro, perspectiva o Rio Ave de uma nova era
António Sousa continua o mesmo de sempre. Um ano fora da actividade normal não o fez mudar, nem uma vírgula, em relação ao que era. Continua reservado, ponderado nas respostas, alérgico a polémicas e, acima de qualquer outra máxima, com muita confiança nas suas próprias capacidades e nas de quem trabalhará sob a sua liderança. Para assinalar o regresso do homem que um dia concretizou o sonho de um clube de menor dimensão, como Beira-Mar, de conquistar a Taça de Portugal, nada melhor do que uma conversa informal. À mesa de um café de S. João da Madeira, paredes-meias com o estabelecimento onde durante um ano passava os dias. A registar boletins de Totoloto ou do Euromilhões, a vender jornais, revistas, tabaco... É que a vida não pára. Por muito que se sinta falta do futebol.
O JOGO| Foi fácil chegar a acordo com a Direcção do Rio Ave?
ANTÓNIO SOUSA| Estive reunido com o chefe do departamento de futebol, o Paulo Fangueiro, onde abordámos aquilo que mais de interesse teria para o projecto do Rio Ave. Esta conversa, positiva, demorou mais ou menos 30 minutos. Penso que pela abertura, pela forma pura com que fui abordado e como me falaram do objectivo, parece-me serem pessoas honestas, com um nível que me agradou. E no dia seguinte, depois de passada a palavra ao presidente, através de um telefonema, disse-me que estava concretizado tudo quanto tínhamos conversado e, portanto, a partir daí seria treinador do Rio Ave. Posteriormente, tive um primeiro contacto com o presidente no sentido de nos darmos a conhecer um pouco melhor e deu-me a conhecer os objectivos do Rio Ave...
P| Que objectivos?
R| São os objectivos de sempre. Esta é uma equipa que luta para fazer campeonatos tranquilos, que passa por procurar não cair numa zona perigosa, ficar completamente liberto de situações melindrosas e depois, se possível, fazer um campeonato ao nível do que o Rio Ave tem feito nos últimos anos.
P| Foi isso, essencialmente, o que lhe foi pedido?
R| Foi isto e é este o grande objectivo do Rio Ave. Procurarmos fazer uma época positiva e, quando digo positiva, é ao nível do que tem sido feito no passado recente.
"Ombrear com os melhores"
P| A conquista da Taça de Portugal foi, sem dúvida, o grande título da sua carreira. Uma vez que inicia um novo ciclo, que ambições tem a partir de agora?
R| Continuar a evoluir, continuar a crescer, continuar a ser melhor e pensar em chegar o mais alto possível na minha carreira. E é isso que vou continuar à procura.
P| Chegar a um grande, por exemplo?
R| Chegar a um grande, por que não? Estou completamente pronto, preparado e habilitado para ombrear ao nível dos melhores. Acho que a maioria dos treinadores portugueses tem grande qualidade. Já o demonstraram, mas se calhar não temos tido tantas oportunidades como alguns já tiveram e se calhar essa é uma lacuna que existe em termos de dirigismo português. Ou seja, alguma dificuldade e talvez alguma apreensão que possam ter em relação aos treinadores portugueses.
P| E nesta altura com certeza que a sua grande ambição é procurar fazer com o que Rio Ave continue a crescer e seja um grande clube...
R| Vou procurar fazer com que o Rio Ave continue a crescer. Este é o principal objectivo. Certamente que se o clube continuar a crescer, o seu treinador e toda a equipa técnica também irão crescer. É este o pensamento que tenho em relação a esta nova etapa da minha vida, convicto de que faremos um bom trabalho em Vila do Conde porque tenho confiança em mim, na equipa técnica, nas pessoas que me vão rodear e, naturalmente, em todos os jogadores.
"Convites que me apareceram não eram convenientes"
P| Um ano em casa foi muito tempo?
R| Foi demasiado tempo. De qualquer forma, foi positivo pelo facto de ter descansado bem, de ter carregado baterias para o que vem a seguir. E se já estava motivado, naturalmente que a partir de agora mais motivado estou.
P| Diz que foi uma experiência positiva. Em que aspectos? Estar no desemprego nunca é agradável...
R| Estive no desemprego, felizmente, porque optei por isso. Desde o início da época tive a possibilidade de ter clube. Surgiram algumas situações, da SuperLiga e da Liga de Honra, só que entendi que tudo quanto me apareceu não era conveniente...
P| Não era conveniente porquê?
R| Eram projectos que de certa forma não visavam o que mais desejaria. E talvez por isso tenha ficado tanto tempo em descanso. Serviu principalmente para fazer o que não era muito normal fazer: estar mais tempo com a família, descansar em termos mentais, porque foram anos consecutivos de muito "stress" e veio dar-me alguma tranquilidade.
P| Neste longo período, de que é que sentiu mais falta?
R| De tudo a que estava habituado no dia-a-dia, ao longo destes anos. Dos estádios, dos espectadores, dos jogadores, da relva, enfim, de tudo um pouco. E a partir de certa altura comecei a sentir necessidade de estar envolvido naquilo que sempre gostei de fazer.
P| Chegou a ter momentos de desespero?
R| Não, nunca. Felizmente, ao longo da época foram aparecendo convites para retomar a minha carreira. Estive permanentemente em contacto com muita gente, de vários clubes. Entendi que não era o momento indicado para regressar, mas procurei estar dentro do futebol, analisando, indo algumas vezes aos campos ver jogos e estando sempre a par de tudo quanto se ia passando a nível nacional.
P| Pode saber-se de quem recebeu convites para voltar a trabalhar?
R| Não vale a pena estar a falarmos do que não aconteceu. Iria interferir com pessoas e não seria adequado nem muito ético estar a falar de coisas que não têm interesse nenhum, principalmente para as outras pessoas.
"O plantel necessita de alguma frescura"
P| Reconhece que Carlos Brito deixou uma herança pesada?
R| Se calhar é, mas vamos entrar numa era diferente. Todos temos a consciência do mérito que é atribuído ao Carlos Brito e a toda a esta gestão que o Rio Ave tem feito ao longo destes anos com épocas de grande qualidade. O clube está estabilizado na SuperLiga, é este o grande objectivo que procuraremos manter no próximo ano. De qualquer forma, é um ano de transição. O Carlos Brito é um filho da casa, esteve muitos anos ligado à instituição, tem um trabalho cimentado por ele, sempre com a mesma base, e naturalmente que tudo isto dá-me garantias de continuidade positiva.
P| Praticamente com a mesma estrutura...
R| Quando digo que é um ano de transição é também por terem saído algumas pedras importantes no clube, espero que não saia mais ninguém, visto que há um ou outro jogador com cláusulas de rescisão e se isso acontecesse poderíamos perder pedras importantes para a equipa. Fomos à procura de jogadores mais jovens, com alguma falta de experiência na SuperLiga. Tenho a noção de que a maioria deles tem grande valor. Reconheço que o Rio Ave tem necessidade de alguma frescura, visto que tem tido anos consecutivos de grande qualidade, mas neste momento a equipa tem necessidade de refrescar o seu plantel em termos de idade.
P| Corre riscos ao apostar num grupo jovem e com alguma inexperiência...
R| Não tenho a menor dúvida de que será um ano de transição um bocado complicado, pelo menos nesta fase inicial, devido ao facto de os reforços serem jovens. Mas também são jogadores com grande valor.
"É importante termos coragem"
P| Este será o desafio mais complicado da sua carreira?
R| Não, penso que não. É importante termos coragem, sermos sérios, trabalharmos com muito empenho e muita dedicação e quando se trabalha as coisas acabam por acontecer e correr bem. É isso que penso porque acredito nas pessoas de Vila do Conde e do Rio Ave, em toda a Direcção, tenho confiança plena no grupo e certamente que todos procurarão ser melhores do que foram ontem.
P| Parte então com muita fé para este projecto em Vila do Conde?
R| Parto bastante optimista.
"O Beira-Mar toca-me no coração"
Nem todos os treinadores podem gabar-se de dizer que estiveram mais de sete anos a trabalhar num clube. António Sousa é um desses casos raros e pelo que fez no Beira-Mar ficará para sempre ligado à história daquele clube. Coincidência ou não, o clube caiu no abismo depois da sua saída e, como tal, o Beira-Mar teria que ser tema obrigatório da conversa.
P| Abandonou o Beira-Mar há mais ou menos um ano e desde essa altura nunca abordou, em detalhe, a saída de um clube onde trabalhou sete anos e meio. Afinal, o que é que se passou?
R| São assuntos que pertencem ao passado. Aquilo que podia terdito foi falado na devida altura. Não vou, neste momento, falar de qualquer outra situação, a não ser que o Beira-Mar diz-me muito, é um clube que me toca no coração. Foram muitos anos vividos no Beira-Mar e em Aveiro, foram quase 16 anos [contando com os de jogador] e 16 anos é uma vida. Naturalmente que é enorme a minha simpatia pelo Beira-Mar e por Aveiro e fiquei naturalmente muito triste por as coisas terem acontecido como aconteceram depois da minha saída. Triste pelo clube e pela cidade, porque o Beira-Mar e Aveiro merecem estar na SuperLiga, pelo estádio e por tudo o que têm.
P| Ficou surpreendido com a queda vertiginosa do Beira-Mar?
R| Plenamente. A equipa tinha estabilidade total na SuperLiga. Era impensável, para mim, que passados alguns meses tal desfecho pudesse ser uma realidade e é com muita tristeza e muita mágoa que fui assistindo ao descalabro total daquilo que gosto.
"Benfica é um justo campeão"
P| Tendo em conta que foi um espectador atento durante este ano em que esteve parado, que análise que faz ao campeonato? Foi o melhor dos últimos anos?
R| Penso que não. Se calhar terá sido em termos competitivos, porque foi emotivo desde a primeira à última jornada. Mas, em termos de qualidade, foi um campeonato nivelado do meio para baixo. As equipas consideradas médias tiveram um nível mais ou menos equilibrado, dentro do que era hábito e normal. Houve uma ou outra equipa que conseguiu mais alguma coisa do que tinha conseguido nos últimos anos. Como foi o caso por exemplo do Braga. O Boavista, até certo ponto, fez um campeonato algo positivo.
P| E os três grandes?
R| Penso que todos eles, em termos de qualidade de jogo, protagonizaram um ano não muito bom porque não é normal o que aconteceu. Se falarmos por exemplo no ex-campeão, o Porto, fez um campeonato nivelado por baixo em termos de qualidade de jogo e em termos de pontos conquistados. E nós, enquanto temos vida, se calhar não nos lembrámos de tantos pontos perdidos em casa. Isto reflecte o lado negativo dos três grandes.
P| O Benfica foi um justo campeão?
R| Quando se é campeão, independentemente de procurarmos arranjar isto ou aquilo ou de gostarmos deste ou daquele clube, o mais importante é termos a noção que se é campeão é porque realmente foi a melhor equipa ao longo do campeonato. Quer-me parecer que é um justo campeão.
Publicado por blogue do rio ave às 18:35
Discurso ambicioso. Gosto. No entanto, a verdade é que Sousa só por uma vez classificou o Beira-Mar na primeira metade da tabela. Por isso, para de facto se assumir como "material" de grande clube terá de pelo menos voltar a colocar o Rio Ave na metade cimeira da classificação. Também gostei do registo da entrevista do novo treinador. Só acho que o discurso da ambição para um grande é um bocado precipitado. Como bem disseste, Hugo, o Sousa apenas uma vez colocou uma equipa acima da primeira metade da Superliga (juntado-lhe a Taça de Portugal, mas frente ao Campomaiorense...). Seria muito bom para nós que este 'salto', aparentemente tão desejado, acontecesse à nossa custa. Vontade não lhe parece faltar... Força! Ah e parabéns ao jornal 'O Jogo', em dois dias duas entrevistas plenas de oportunidade. Assim, sim.
:: uma recarga de Hugo Anjos em junho 13, 2005 07:38 PM
:: uma recarga de João Carmo em junho 14, 2005 12:01 AM