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segunda-feira, 20 junho 2005

Idalécio: «Tenho condições para jogar num grande»

Categoria: Entrevistas

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Entrevista publicada no jornal 'O Jogo', conduzida por Filipe Pedras

Perto de completar 32 anos, o central diz estar cada vez melhor e lamenta nunca ter tido oportunidade de mostrar o seu valor num emblema com superiores ambições. Idalécio reclama o preço da sua regularidade, pois já são dez anos a jogar no principal escalão do futebol nacional sem espaço para voar mais alto. Carlos Brito quis tê-lo de novo a seu lado, mas o defesa garante a O JOGO que disso... não passou.


Ao lado da família, Idalécio descansa na tranquilidade de Faro, ali bem perto da cidade onde começou a levar a bola mais a sério. Com 12 anos foi para Loulé. Reiniciou a sua vida pessoal e arrancou com a do futebol. Mais tarde, Paco Fortes chamou-o para o Farense, onde foi aposta regular. Acumulada a experiência, o central partiu "em busca do sucesso" para Braga. Problemas pessoais e não só obrigaram-no a pedir para sair e rumou à Madeira para vestir a camisola do Nacional. Um ano depois, assinou pelo Rio Ave e, na segunda época ao serviço dos vila-condenses, acaba de cumprir "a melhor temporada" da sua carreira.

Calmo e experiente, Idalécio transpira humildade nas palavras mas faz sentir a mágoa de nunca ter saído para um grande ou mesmo ter rumado ao estrangeiro.

O JOGO| Já conta dez anos de carreira na SuperLiga. Que balanço faz neste aniversário?
IDALÉCIO| Tem sido óptimo. Gostaria de ter alcançado muitas coisas mais, mas também fico feliz quando olho para trás e vejo que tive sucesso, em comparação com muitos dos meus colegas que nunca tiveram a sua oportunidade. Sinto-me muito orgulhoso, mesmo quando dei passos atrás na carreira. Isto em relação ao Braga, que foi um dos melhores clubes que representei até agora. Mas tive de abdicar disso, porque naquele ano quis ir-me embora. Quis demonstrar que ainda tinha valor. As pessoas pensavam que eu ia sair do Braga e, pela minha idade, já não iria aparecer mais no futebol.

P| Queria provar algo a essas pessoas?
R| Exactamente. E acabei por me valorizar e foi óptimo para mim. Sempre tive consciência de que tinha valor e nunca tive medo de procurar o sucesso. Sair do Braga para ir para o Nacional foi um risco, porque o Nacional tinha subido à primeira divisão. Era um ano difícil e depois ainda corri um risco em representar o Rio Ave, que também um clube humilde e com aspirações modestas. Estou feliz por tudo ter corrido bem e pelo que tenho conseguido até agora.

P| Disse que ambicionava voar mais alto. Até onde? Jogar num "grande" de Portugal?
R Exactamente. Começando pelo nosso País, julgo que tinha possibilidades para jogar num desses clubes. Acho que tenho provado, dentro das minhas qualidades, que podia representar um "grande". Claro que a minha opinião é subjectiva, mas penso assim. E também podia jogar no estrangeiro. Todos os jogadores que vão para o estrangeiro, ou pelo menos a maioria deles, acabam por ter sucesso. A valorização é diferente.

P| Mas neste momento, e com a sua idade, acha que ainda podia jogar num "grande"?
R| Sim. Continuo a achar que ainda o podia fazer. Tinha todas as condições para isso. Mas sabemos que isso depende de muitos factores e estou muito feliz pelo que alcancei até aqui e pelos clubes que tenho representado até agora.

P| Em alguma altura houve essa possibilidade?
R| Infelizmente, isso nunca aconteceu. Mas houve momentos em que me sentia bem e de um momento para o outro saía do onze inicial. É uma série de factores que tornam difícil o nosso sonho.

"Carlos Brito queria-me no Boavista"

P| Houve possibilidade de se mudar para o Bessa?
R| Surgiram notícias disso e não achei estranho porque o treinador conhece-me bem. Fiquei orgulhoso. Não é segredo que o mister Carlos Brito gostava de ter alguns jogadores do Rio Ave no Boavista, porque é normal que pense que alguns o possam ajudar a desenvolver um bom trabalho.

P| E Carlos Brito falou consigo?
R| Sim, chegámos a conversar sobre isso e tenho a certeza de que era um dos jogadores que ele queria no Boavista, mas não chegou a passar disso. Havia o desejo do treinador, não só em relação a mim e fico feliz por isso. Infelizmente, não passou disso.

P| E que balanço faz desta segunda época ao serviço do Rio Ave?
R| Foi muito positiva. A melhor em termos de utilização e de exibições, embora tenha sido sempre muito regular. Nunca fiz nem grandes nem péssimas actuações. Fui sempre muito regular ao longo de toda a minha carreira, o que acho fundamental no sucesso de um jogador. Esta foi uma época excelente, porque fui uma aposta do treinador e fiquei muito feliz por isso.

"Sinto-me feliz por ter clube neste momento"

P| Fica com a ideia de que Carlos Brito conseguiu fazer "omoletas sem ovos" na última época?
R| Sim, até porque ele teve o dom, juntamente com a Direcção, de fazer uma boa equipa. Sem grandes nomes, a equipa jogava bem e era falada nos jornais e em todo o lado. Isso encheu-nos de orgulho e a cada dia motivou-nos cada vez mais para darmos o nosso melhor. Se reparar, não jogávamos para a UEFA, mas andámos sempre próximos desses lugares. Tínhamos consciência da realidade, mas não foi por isso que deixámos de tentar. Vivi no meio de um grupo inexplicável. Mesmo os que não jogavam, foram espectaculares e sempre apoiaram os restantes.

P| O seu contrato termina no final da próxima época. Pensa renovar?
R| Ainda é cedo para pensar nisso, mas sinto-me em condições para jogar mais e acredito que posso jogar pelo Rio Ave. E isto não é falta de ambição, porque neste momento o Rio Ave é um clube apetecível para muitos jogadores. Sinto-me feliz por ter clube neste momento. Há muitos colegas que nem isso têm. Se tiver de ficar no Rio Ave, ficarei de bom grado.

"Não me deram valor no Braga"

P| Está à espera de um convite para renovar...
R| Como já disse, não é falta de ambição ficar no Rio Ave, mas claro que ainda me sinto em condições para rumar a um clube com outras aspirações e outros objectivos. Vejo futebol e vejo tantos jogadores e tantos negócios... Sinto que podia representar clubes maiores, mas as propostas não surgem, porque há uma série de interesses por trás. Neste momento, julgo que já muita gente me conhece, ou se não conhece, penso que já deveria conhecer. Mas em certas alturas as pessoas não acreditavam tanto em mim e agora valorizei-me ao longo destes dois anos no Rio Ave. Em Braga passei por algumas coisas e houve momentos de grande tristeza. Aceitava o facto de ser titular num jogo e, logo na semana a seguir, já não...

P| E alguma vez lhe justificaram essa intermitência?
R| Não. Tal como não justificam o facto de sermos titulares, os treinadores também não nos dizem porque ficamos no banco. Sempre respeitei isso, mas se calhar não me respeitaram tanto a mim, nem me deram o valor que merecia. Sempre que jogava, jogava bem. Podia não fazer exibições de encher o olho, mas julgo que merecia maior destaque. Muitas coisas que fiz passaram ao lado.

P| O seu ex-companheiro no eixo da defesa, Franco, diz não se conseguir adaptar ao futebol coreano. Tem alguma explicação para isso?
R| Falo com ele algumas vezes e sei das dificuldades que ele passa. Mas foi um proposta que lhe surgiu muito boa e nós que andamos nestes clubes e não temos possibilidades de chegar a um grande temos de aproveitar. Foi o que ele fez e agora tem de fazer um sacrifício para aguentar e até tentar renovar. A língua é uma grande dificuldade e os avançados também são muito rápidos. Pode ser isso, mas penso que a língua será a maior dificuldade.

"António Sousa não tem nada a provar"

P| Que ideia tem de António Sousa?
R| Embora nunca tenha trabalhado com ele, julgo que fez no Beira-Mar um trabalho idêntico ao do mister Carlos Brito no Rio Ave. A Direcção teve em conta o perfil do treinador que tínhamos e foi assim que escolheu o novo treinador. Penso que ele já não tem de provar nada e, com certeza, irá tentar dar continuidade ao que já está feito.

P| Dentro dessa linha, até onde pode ir o Rio Ave na próxima época?
R| Não conheço a maior parte dos jogadores que foram contratados até agora. Aqueles que já jogavam em Portugal, sei que são bons valores. Perdemos o Miguelito para o Nacional e saíram alguns jogadores importantes para o grupo. Os objectivos vão ser os mesmo da última época. Não é que exista falta de ambição, é simplesmente o facto de ter os pés assentes na terra. O sucesso do Rio Ave tem sido esse. Temos consciência do nosso valor, mas também das nossas limitações.

P| Até quando haverá Idalécio?
R| Até que me sinta bem. Graças a Deus, nunca tive lesões graves e na minha posição julgo que dá para aguentar mais uns anos.

P| Sente-se com um bom Vinho do Porto, é isso?
R| Sim. Tenho 31 anos, faço 32 em Setembro e esta acabou por ser a minha melhor época a todos os níveis. Não só eu. Há outros jogadores que à medida que ficam mais velhos se tornam ainda mais importantes para os seus clubes e eu estou mais perto de ser importante na equipa que tiver de representar.

"Desculpe, tem o 47?"

A pergunta foi repetida vezes sem conta por este Portugal fora, mas a resposta foi sempre... negativa. É verdade, Idalécio sempre teve "grandes dificuldades" em encontrar botas para o seu tamanho e a história já vem desde os juvenis, altura em que o pé do defesa-central já "devia ser o 46". Mas o jogador algarvio não se atrapalhou. Há cerca de dez anos, o Farense deslocou-se a Lyon para jogar com a equipa local e Idalécio aproveitou para encontrar as tão difíceis botas. "Era eu e toda a equipa. Até os dirigentes!", recorda. Ao fim de uns périplos por alguns centros comerciais, "lá se encontrou um par".

As férias do "Girafa"

O ritual é o mesmo há vários anos. Nas férias do Verão, Idalécio regressa para (perto) da terra onde viveu desde os 12 anos e deixou muitas saudades. Começou em Loulé e Faro é mesmo ali ao lado. Este ano, é na casa dos sogros - Carlos Sério foi também jogador do Farense -, em Faro, que cumpre o merecido descanso na companhia da esposa, Rita, e das suas pequenas filhas: Catarina, de 6 anos e Francisca, de 4. E todas elas conhecem bem a alcunha de Idalécio. Os colegas de profissão tratam-no por "Girafa". Escusado será dizer que é devido à altura do jogador... "Já me chamam isso desde as camadas jovens e pegou", esclarece o jogador, que passa os dias entre a praia, a família e os amigos.

Publicado por blogue do rio ave às 19:42

Comentários:





Caro Girafa, fica por cá que ficas muito bem... Fazes falta para a próxima época.


:: uma recarga de Hugo Anjos em junho 20, 2005 09:20 PM


Até pode ser bom moço, e é sem dúvida uma pedra essencial no eixo da defesa,mas o Rio Ave não precisa de alguém que diz "infelizmente não passou disso!


:: uma recarga de João Lacá Martins em junho 21, 2005 12:28 PM


Sou de Aveiro, quando concorri para o cefa em coimbra tive o prazer de passar a seu lado e verifiquei de onde vem a alcubha de girafa, penso que é um jogador que sem duvida podia ter jogado num grande. quanto ao treinador antónio sousa, como sou de aveiro, só tenho a dizer que o rio ave acertou em cheio.


:: uma recarga de pedro em julho 8, 2005 10:30 PM