« Futsal: Apresentação | Entrada | Ricardo Nascimento continua fulminante »

terça-feira, 28 junho 2005

Zé Gomes: «Não sou peixe graúdo»

Categoria: Entrevistas

Entrevista publicada no jornal 'O Jogo', por Ricardo Nuno Fidalgo

Estamos junto ao mar, em Vila do Conde. O mesmo mar que fez Zé Gomes lutar contra o destino de pescador que dificilmente lhe fugiria. Fugiu ele e construiu a pulso uma carreira que acabou por lhe proporcionar o regresso a casa, não para o mar, mas para o Rio. Rio Ave. Onde o lateral diz estar bem, mas agora sem medo de que uma onda maior o leve para outras paragens

Modesto, mas ambicioso. Zé Gomes saiu do Rio Ave terminada a formação como extremo, voltou aos 26 anos como lateral-direito. Duas épocas depois, é um dos jogadores mais apreciados da SuperLiga na sua posição e, apesar do orgulho que sente em representar o clube da terra onde nasceu, acha que chegou a altura de cumprir mais uma etapa da carreira ascendente que vem traçando. Sem se considerar "peixe demasiado graúdo" para a dimensão vila-condense, gostava, ainda assim, de experimentar mais. Já esteve perto do FC Seul (Coreia do Sul) e, mais recentemente, o Celta de Vigo (Espanha) também manifestou interesse. Zé Gomes fica à espera.


O JOGO | Que futuro é o seu?
ZÉ GOMES | Espero bem que seja risonho. Agora, a única coisa que sei é que tenho contrato com o Rio Ave por mais uma época e aquilo que leio nos jornais é que no dia 4 de Julho terei de me apresentar.

P | Perto de completar 29 anos, não sente que a saída para o estrangeiro é "agora ou nunca"?
R | Não sinto isso, mas acho que, depois destas duas boas épocas no Rio Ave e depois de o meu nome ter sido falado para alguns sítios no estrangeiro, se calhar esta seria uma boa altura para sair. Mas isso não quer dizer que, ficando mais um ano no Rio Ave e as coisas correndo bem, não surjam mais oportunidades.

P | Seria o passo natural de uma carreira ascendente?
R | Desde que saí de Bragança, foi sempre a subir. Já joguei na III Divisão, na II B, na Liga de Honra e, agora, na SuperLiga. Por onde passo, tenho-me afirmado, as coisas têm corrido bem e eu, como qualquer jogador, tenho as minhas ambições. Cheguei aqui e agora quero mais.

P | Considera-se já "peixe demasiado graúdo" para o Rio Ave, é isso?
R | Não, claro que não! Sou um "peixe normal", como os outros. Respeito muito o Rio Ave, clube da minha terra, que me formou e me projectou na SuperLiga. Não posso esquecer isso e não me sinto um "peixe graúdo". Gosto de estar em Vila do Conde e gosto do Rio Ave; apenas sou ambicioso e se aparecesse uma coisa favorável para mim e para o clube, seria bom.

P | Os clubes interessados não têm avançado para situações mais concretas. É um jogador caro?
R | Não acho que seja um jogador caro, mas há uma cláusula de rescisão que, pessoalmente, acho um bocado alta. É exagerada, principalmente para clubes portugueses. Isso não quer dizer que as partes não conversem para chegar a um entendimento. Gostava que isso acontecesse.

P | Durante a época, esteve com um pé e meio na Coreia do Sul, mas o FC Seul acabou por levar o Franco. Recorda com pena esse episódio?
R | De certo modo, tenho pena de isso não se ter concretizado. Por outro lado, continuei a trabalhar e as coisas correram-me bem até ao fim. Pode ser que apareça outra oportunidade para ir.

P | O Franco, por exemplo, não se está a dar muito bem com aqueles ares. Acha que teria facilidade em adaptar-se?
R | Conheço-me bem e acho que me iria adaptar à Coreia.

P | De qualquer modo, Espanha, o outro destino de que se fala, seria mais aliciante, ou não?
R | Sim, é mais perto e a língua é diferente (talvez esse seja um dos problemas do Franco em Seul). Se aparecesse a hipótese de ir para Espanha, certamente que seria melhor para mim.

"Vamos ajudar Sousa e os reforços"

P | Caso nada disso se concretize, vê com bons olhos ficar no Rio Ave?
R | Claro que sim e espero que a época que vai começar seja igual ou melhor do que as duas que já fizemos.

P | Será uma nova etapa...
R | É verdade. Mudam alguns jogadores, muda a equipa técnica - e aproveito para agradecer a oportunidade que me deu o mister Carlos Brito... O novo técnico, que conheço pelo trabalho no Beira-Mar e pelo percurso que teve como jogador, será acarinhado e ajudado pelos jogadores, porque também nós vamos precisar da ajuda dele.

P | Também porque há muitos reforços a chegar...
R | Saíram jogadores que foram influentes nestas duas épocas, mas é um ciclo que se fecha. Vai abrir-se outro, certamente. Há jogadores que conheço só pelos jornais, nunca os vi jogar, mas se foram contratados é porque têm qualidade e vão ter de demonstrá-la aqui, na SuperLiga. Os que ficaram vão ajudá-los.

P | Depois de duas boas épocas, o que poderá fazer o Rio Ave?
R | Depois do que fizemos, claro que metemos a fasquia um bocadinho alta. Mas toda a gente sabe que o Rio Ave sofreu uma pequena remodelação e o primeiro objectivo vai ser sempre a permanência na SuperLiga. Durante o campeonato, logo se verá, mas acredito que faremos uma época igual ou ainda melhor.

"Adaptação a lateral mudou a minha vida"

P | Quem foi o responsável pela sua adaptação a lateral, uma vez que era extremo-direito?
R | Essa adaptação foi feita pelo mister Fernando Pires "Fanã", na Ovarense. Lançou-me como lateral-direito e correu bem, o que não quer dizer que, quando precisarem, não possa jogar como extremo.

P | Uma decisão que mudou a sua vida...
R | Completamente! Foi como lateral-direito que consegui dar o salto para a SuperLiga. Talvez não estivesse neste patamar, caso continuasse a jogar na frente.

P | É chato para si ter de defender ou a adaptação foi plenamente conseguida?
R | Neste momento, está plenamente conseguida. Mas não é fácil para alguém que jogou sempre na frente, habituado a que os outros viessem atrás de si, passar, de um momento para o outro, a ter de defender mais do que atacar. Actualmente, gosto muito de jogar nesta posição.

"Não aluguei a claque"

P | Foi formado no Rio Ave, mas andou muito tempo fora até chegar aos seniores do clube. Dá-lhe um prazer especial jogar na sua terra?
R | Claro que sim. Fiz as camadas jovens todas no clube e aos 19 ou 20 anos fui embora. Andei pela III Divisão, pela II B e II Liga, em Ribeirão, Bragança, Montalegre, Braga (na equipa B) e Ovar, até regressar ao Rio Ave. Sinto-me orgulhoso por representar o clube da minha terra e espero ter, ainda, muitos êxitos.

P | Nos jogos em casa, parece ter alugado uma claque, tal o número de camisolas com o seu nome nas bancadas...
R | (risos) Não aluguei a claque, mas é sempre bom. Tenho muitos amigos aqui e as pessoas conhecem-me. É normal, na rua, pedirem-me para oferecer uma camisola e não tenho coragem de dizer que não.

Viveiro de jogadores

A infância de Zé Gomes foi passada entre a escola - "onde muitas vezes não ia", confessa - e as ruas das Caxinas, "a jogar à bola". "Ao fim-de-semana, convocávamos uma selecção e íamos jogar contra outra rua", recorda. Mais tarde, já no Rio Ave, teve a oportunidade de constatar que muitos dos companheiros, e outros mais velhos ou mais novos, tinham em comum as origens junto ao mar: "Têm vindo a sair muitos jogadores aqui das Caxinas, acho que isto é um viveiro de qualidade. Se fossemos buscar todos, conseguíamos fazer duas ou três boas equipas de futebol. Falo do Miguelito, do Hélder Postiga, Paulinho Santos, André, Luís Manuel, Marafona, Renato e muitos mais. Outros passaram pelas escolas do Rio Ave, mas optaram pelo mar", observa o jogador vila-condense.

No plantel do Rio Ave para 2005/06 há mais duas "pérolas" das Caxinas, Fábio e André Serrão, a quem Zé Gomes, mais experiente, deixa algumas dicas: "Vejo com muito agrado o aparecimento deles e só tenho pena que não apareçam mais, porque o Rio Ave tem boas escolas. Se tiverem cabeça e continuarem a trabalhar, o Fábio e o André vão ser duas peças fundamentais no futuro do clube." E que futuro terá Vítor, ainda júnior, irmão do lateral-direito dos seniores? "É um miúdo humilde, tem boas condições para ir longe, mas digo o mesmo: tem de ter cabeça e trabalhar muito, porque isto não é fácil", aconselha o mano Zé, convicto de que o seu sucessor familiar "terá melhores condições para o futuro do que o irmão, porque os tempos são diferentes".

Costela transmontana

Quando chega a altura de trocar os relvados pelas praias e a maioria dos futebolistas entra no jogo social algarvio, Zé Gomes toma a estrada em sentido inverso e só p*ra em... Trás-os-Montes. "Saí de Vila do Conde com 19 ou 20 anos, fui para jogar para Bragança e adaptei-me bem. Por isso é que, quando falámos do FC Seul, disse que não teria problemas de adaptação. Saí das Caxinas, de debaixo da 'saia dos meus pais', e fui para 250 quilómetros de distância, numa terra diferente, onde não conhecia ninguém. Depois, conheci a minha esposa, Daniela, que me tem ajudado muito, e os meus sogros, que são incansáveis", elogia o jogador do Rio Ave. O irresistível convite à equipa de reportagem de O JOGO para, um destes dias, ir até Bragança "tratar da saúde" a uma Posta à Mirandesa deixa adivinhar a resposta que se segue... "Tenho uma costela caxineira e uma costela de Trás-os-Montes. Adoro estar lá, não é por acaso que quando acaba o campeonato vou logo. Estou na minha terra todo o ano e passo a maior parte das férias em Bragança", revela Zé Gomes.

Para o mar é que não!

Filho de pescador e criado em zona pescadores, Zé Gomes imagina o que faria caso não tivesse conseguido singrar no futebol. "Se não fosse jogador, se calhar andava no mar", assume, com o sabor aziago das pequenas experiências dentro de um barco e os sábios conselhos do pai na memória: "Cheguei a ir com o meu pai, mas só em passeio, da doca de Vila do Conde até Matosinhos. Disse mal da minha vida! O meu pai sempre me incentivou a não ir para o mar; dizia-me que quem vai para o mar é aquela pessoa que não sabe fazer mais nada, o que não é verdade, porque ele é Mestre de um barco e estudou para ter as cartas que tem. Agora, ele sabe aquilo que passa, e eu também sei, daí que sempre me tenha encorajado a ter outra profissão qualquer."

Contudo, o lateral-direito do Rio Ave herdou das gentes das Caxinas a vontade e o querer: "Aquilo que tenho, que não é muito, foi sempre conseguido com muito espírito de sacrifício e passei certas dificuldades para chegar onde cheguei. Claro que me revi muitas vezes naquilo que os pescadores aqui na Caxina, em Vila do Conde, passam", conta.

Publicado por blogue do rio ave às 14:01

Comentários:





É o meu primo! ;D


:: uma recarga de Tiago Reis em junho 28, 2005 07:44 PM