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quarta-feira, 26 abril 2006

Um «cantinho» no Ave

Categoria: Artigos

Artigo publicado no jornal "A Bola"

O coração vai partir-se em dois no próximo domingo. João Morais, cujo golo decidiu a finalíssima de Antuérpia e permitiu ao leão arrecadar o seu único troféu europeu — a Taça das Taças, na época 1963/64 —, espera que o Rio Ave vença o Sporting, condição fundamental para o clube vila-condense continuar a sonhar com a permanência.

João Morais, adoptado por Vila do Conde em finais da década de 60, quer continuar a ver o clube da terra na Liga. O cantinho de Morais está gravado a letras douradas na história do Sporting. Mas o artista que brilhou na decisão da Taça das Taças, adoptado por Vila do Conde no final da década de 60, rasga o coração e explica por que razão vai torcer pelo Rio Ave, na 33.ª jornada da Liga. "Tenho uma paixão indescritível pelo Sporting, mas também gosto muito deste clube e desta bonita cidade, que merece permanecer no mapa do principal campeonato português. Só com uma vitória é possível continuar na luta", explica o ícone leonino, em conversa com A BOLA no palco do encontro de domingo, enquanto segue com atenção o treino dos nortenhos. João Morais chegou a Vila do Conde na época 1968/69 para representar o Rio Ave, cuja camisola vestiu ao longo de duas campanhas. A carreira desviou-o para outros caminhos, mas o regresso foi inevitável e, como treinador, trabalhou, com grande sucesso, nas camadas jovens dos verdes-e-brancos. "Muitos destes rapazes passaram pelas minhas mãos", diz, com um brilho nos olhos, orgulhoso, desvendando motivos mais do que suficientes para esquecer, nem que seja apenas durante 90 minutos, o amor eterno ao leão.

Receita de campeão

"Vou assistir ao jogo aqui, na bancada. Mas o futebol já não é como antigamente", continua, em tom nostálgico mas frontal. "Como profissionais, os jogadores deviam trabalhar todos os dias, de manhã e à tarde. No meu tempo era assim", conta, aceitando dar a táctica da vitória a João Eusébio: "Apostava no Milhazes para o meio-campo." Para Morais, os vila-condenses "necessitam de trabalhar muito bem a vertente psicológica, pois carregam com o ónus de três derrotas consecutivas". Com a sabedoria dos seus 71 anos, João Morais continua muito atento ao futebol e espera até retomar, em breve, a actividade de treinador. "Possuo o 4.º nível e estou pronto para regressar", atira, em tom resoluto, com aquela imensa garra que o celebrizou de leão ao peito. Enquanto espera, Morais prepara-se para viver a intensidade do duelo dos Arcos. No final da conversa, fica uma certeza: o cantinho do Sporting vai ser do Rio Ave... por um dia.

Publicado por blogue do rio ave às 11:10

Comentários:





Em vésperas do Sporting visitar o Rio-Ave e a bela cidade de Vila do Conde, aqui fica a minha homenagem ao Sr. João Morais, Um Grande Leão hoje radicado na Princesa do Ave.
João Pedro Morais nasceu em Cascais a 6 de Março de 1935, mas foi na vila de Alcabideche que viria a dar os primeiros pontapés na bola. O "miúdo" tinha tanto jeito que com apenas 14 anos, e num clube chamado Sporting.... de Alcabideche, já jogava na equipa dos "homens".
Morais passou depois para os juvenis do Estoril e começou a dar nas vistas. Foi então que um dirigente do Caldas o convenceu a assinar contrato a troco de uma mão cheia de contos de réis. Morais nunca tinha visto tanto dinheiro junto, e não hesitou.
Só que o Benfica tinha entrado também na corrida, conseguindo um acordo com o Estoril para a sua transferência. Ingénuo, Morais voltou a assinar, e provada a autenticidade dos dois contratos, a Federação suspendeu-o durante 12meses. Um castigo que seria reduzido para metade devido a uma amnistia.

O jovem de Alcabideche cedeu depois a sua carta ao Torreense e viria a ser em Torres Vedras que Morais encontraria o caminho para Alvalade. Estreou-se pelo Sporting frente aos brasileiros do Vasco da Gama, e logo na sua posição favorita, como avançado. A aspiração de ser goleador era tanta, que uma vez para não jogar à defesa inventou uma desculpa e acabou por ser dispensado de uma digressão «leonina» ao Brasil.

O seu encontro com a história ocorreu em 1964, quando, depois de Hilário se ter lesionado frente ao Vitória de Setúbal a dois dias da partida para a final da Taça das Taças, na Bélgica, ouviu pelos altifalantes do Estádio de Alvalade que se deveria apresentar com urgência na porta 10-A para integrar a digressão. Foi convocado para substituir o «capitão». Mas até Antuérpia os «leões» tiveram um percurso ímpar na prova.

Primeiro uma desconcertante eliminatória com o Manchester United, derrota em Inglaterra por 4-1, (fez rolar a cabeça de três brasileiros, o técnico Gentil Cardoso, o preparador físico Jair Raposo e o central Lúcio) e a reviravolta por 5-0 em Lisboa, deixando pelo caminho a equipa dos célebres «red devils», composta por Charlton, Law, Stiles entre outros.

Depois frente aos franceses do Lyon, já com o arquitecto Anselmo Fernandez no comando técnico da equipa, e no terceiro jogo em Madrid, com um golo decisivo de Osvaldo Silva, que catapultou o Sporting para a final de Antuérpia.
Morais passava por uma fase de transição, do seu lugar de origem, extremo-esquerdo, para lateral, e perante a infelicidade de Hilário no encontro com o Setúbal, haveria de jogar e cumprir frente aos húngaros do MTK, marcando com eficácia o famoso Sandor, no 3-3 do Estádio de Heysel. Com a necessidade de se jogar uma finalíssima, foi então que Morais haveria de ocupar o lugar de extremo-esquerdo, substituindo o lesionado Dé, mas apenas com uma condição: teria de marcar os pontapés de canto! Após muita discussão, os dirigentes «leoninos« lá aceitaram. E assim foi. Cinco minutos de jogo, canto contra o MTK, no lado esquerdo, mesmo a pedir um pé direito na bola...«eu ensaiava muitas vezes esse tipo de lance. Só tinha de pedir ao Figueiredo para se pôr ao pé do guarda-redes, funcionando como ponto de referência, para lhe cortar a bola junto à cabeça. Ele tinha era de ter cuidado para não fazer obstrução. Nesse instante peguei na bola, acariciei-a como se fosse uma amante e disse-lhe baixinho que ela entraria directa na baliza do Húngaro...».
Entrou...e para a história, aquele cantinho do Morais que valeu ao Sporting a Taça das Taças, e que ficou eternizado na música da fadista Maria José Valério. Como defesa, João Morais haveria de jogar no Mundial de 1966 (contra Brasil, Hungria e Coreia do Norte).

Pelos «magriços» ficou também célebre na vitória por 3-1 frente aos Brasileiros.

João Morais abandonou o Clube em 1969, com 34 anos, após 12 de ligação sentimental, com alguns escolhos e muitas incompreensões. Ainda emigrou para África do Sul, mas voltaria a Portugal um ano depois, para o Rio Ave, primeiro para jogar, depois assumindo o comando técnico dos vila-condenses.

Afastado do futebol, uma doença que custou muito a passar, tornou-se funcionário da câmara de Vila do Conde. Por aí se radicou até aos dias de hoje.

Para terminar gostaria de dizer que o Rio-Ave merecia ficar na 1ª Divisão, mas infelizmente vai descer, pois o Sporting precisa de ganhar. Peço aos adeptos do Rio-Ave que não se esqueçam do jogo que os "desceu" de divisão, o Rio-Ave - Benfica, onde "3" pontos foram transformados em "0" de forma inacreditável; para além de que se o Benfica tivesse perdido em Vila do Conde, o Sporting poderia agora "oferecer" a permanência ao amigo Rio-Ave!


:: uma recarga de PPA em abril 29, 2006 06:04 AM

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